CENTRO DE PRIMATOLOGIA DO RIO DE JANEIRO
Como se sabe, numerosas espécies de animais já desapareceram das matas brasileiras e outras aproximam-se rapidamente do extermínio, dizimadas pela degradação florestal, principal motivo de agressão à fauna. As grandes extensões florestais do passado estão hoje reduzidas a fragmentos de mata, às vezes muito distantes uns dos outros, o que dificulta a conservação natural e facilita a captura e o abate, propiciando ainda o isolamento das populações de animais e a perda de sua variabilidade genética, motivos de grande preocupação.
Some-se a isso a predação, as doenças naturais das espécies selvagens, os efeitos da poluição atmosférica, a contaminação das águas e do solo, a escassez de água, e a bioacumulação de agrotóxicos ou fitossanitários nas cadeias alimentares, entre outros. Uma destacada exceção nesse quadro dramático, é o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro - CPRJ, voltado especialmente para o estudo, manutenção e reprodução das formas mais ameaçadas de primatas não-humanos da floresta atlântica, em criterioso regime de cativeiro (ex situ).
O CPRJ realiza ainda estudos e produz artigos científicos sobre a conservação de animais in situ, ou seja, animais em seu próprio habitat, em vida livre, nesse caso com ênfase para as espécies ameaçadas da região oriental do país.
Criado em 1975 pela Feema, o CPRJ teve suas atividades ampliadas gradativamente, transformando-se, em poucos anos, em modelo original e único no mundo com o propósito de conservar a fauna primatológica.
O Centro tem logrado alcançar êxitos notáveis na preservação das espécies de primatas mais seriamente ameaçadas, permitindo aos conservacionistas manter viva a esperança de que, no futuro, aquelas espécies possam ser reintroduzidas em seus ambientes primitivos.
O Centro colabora constantemente para a formação de colônias-satélites numa tentativa internacional, para salvar a rica fauna primatológica brasileira do extermínio. Os resultados obtidos no que tange à reprodução têm sido animadores.
Seu intuito, portanto, é o de mostrar que é perfeitamente exeqüível reproduzir primatas em cativeiro visando futuros repovoamentos de áreas efetivamente preservadas e, a partir deste modelo, estimular a criação de outros Centros.
Estudos botânicos, climáticos e da fauna, de modo geral, são caminhos que levam ao êxito da criação em cativeiro, fato que tem possibilitado atuar como um banco genético de alta qualidade com o propósito de liberar animais para entidades nacionais e internacionais a fim de melhorar o patrimônio genético dessas populações cativas.
O CPRJ está engajado no programa internacional de recuperação e manejo de espécies ameaçadas e conta com apoio legal, administrativo, técnico e político em todas as três esferas do Poder, principalmente a Federal, já que a primatologia foi referida como uma das metas prioritárias no Plano Brasileiro de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PBDCT, de 1973/74.
REPRODUÇÃO DE SÍMIOS EM CATIVEIRO
Atualmente o CPRJ mantém em cativeiro 250 primatas de pequeno e médio portes, distribuídos em 85 viveiros. Pesquisa os hábitos de 16 espécies de símios cuja sobrevivência está comprometida.
ESTRUTURA E LOCALIZAÇÃO
O CPRJ dista cerca de l00 quilômetros do Centro da Cidade do Rio de Janeiro e ocupa área aproximada de 264.920 hectares, em contrafortes da serra dos Órgãos, localizado no município de Guapimirim, entre Magé e Cachoeiras de Macacu. A situação é realmente privilegiada para o tipo de atividade científica e conservacionista que realiza. Boa parte da área permanece revestida de mata cuja riqueza biótica ainda é significativa, principalmente sob o ponto de vista florístico.
Junto ao CPRJ, como espaço natural e representativo do ecossistema florestal atlântico brasileiro, destaca-se a Estação Ecológica Estadual do Paraíso, unidade de proteção integral, conforme o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC, abrangendo área estimada de 4.920 hectares, destinada à realização de pesquisas básicas e aplicadas de ecologia, à proteção do ambiente natural e ao desenvolvimento da educação conservacionista.
A área onde o CPRJ está localizado pertence ao município de Guapimirim, mas a Estação Ecológica estende-se para o município de Cachoeiras de Macacu. Ali existem dezenas de nascentes que vão constituir as micro-bacias que abastecem cidades vizinhas. Milhares de pessoas são favorecidas com essa água que tem sido administrada pela Cedae, na conhecida represa do Paraíso.
A fauna local, que vive nas matas da região, também tem ali um refúgio, embora intensamente perseguida por caçadores. Assim, o Centro de Primatologia e todo o seu entorno, representado pela Estação Ecológica Estadual do Paraíso, demonstram o papel do Estado na salvaguarda de seus recursos naturais, incluindo a nossa própria espécie, o Homo sapiens.
O CPRJ mantém um patrimônio biótico de valor incalculável, cujo gerenciamento é considerado modelar por entidades nacionais e internacionais interessadas na preservação da vida selvagem. Nele realiza-se uma ampla gama de pesquisas e estudos, em convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, universidades estaduais (UERJ, UENF), e instituições de pesquisa, tais como a Fiocruz, que estudam não só as doenças específicas dos macacos, como também aquelas da medicina tropical cujos hospedeiros vivem nas matas da região. Esses estudos epidemiológicos visam conhecer melhor como os diversos organismos que causam doenças ao homem circulam pela natureza, seja através de insetos ou mesmo de vertebrados.
Ressaltamos ainda as atividades sobre a preservação de espécies, o manejo e a nutrição de primatas neotropicais e sua reprodução em cativeiro, ensaios na área biomédica e em anatomia comparada. Esse conhecimento é repartido com diversas universidades e centros de pesquisa do Brasil, e do mundo, colocando em destaque a nossa capacidade científica e conservacionista.
Em seu amplo campus foram realizadas várias benfeitorias, como a construção do prédio-sede, unidade específica para recepção, armazenamento e preparação diária de rações, unidade de internação, diagnóstico e tratamento médico-veterinário, insetário, viveiros e vias de acesso, além de edificação para uso múltiplo, tais como reuniões, acompanhamento de projetos etc.
Em suas dependências são mantidos espaços organizados para biblioteca, com amplo acervo de publicações especializadas em Primatologia, museu de peles e crânios, banco de carcaças formolizadas etc. Recentemente o CPRJrecebeu recursos de algumas organizações que permitiram adquirir novos equipamentos e criar novos espaços para uso dos interessados em participar dos
programas de educação ambiental e desenvolvimento sustentável rural, previsto para assegurar a qualidade ambiental do entorno da Estação Ecológica Estadual do Paraíso.
A preocupação com os aspectos paisagísticos e ecológicos dos diversos espaços rodapes na periferia dos viveiros e das edificações existentes, é demonstrada pelo serviço de restauração do habitat e plantio de árvores nobres, muitas delas conhecidas como madeira-de-lei.
Devido aos cuidados especiais inerentes a um programa de conservação de espécies animais ameaçadas de extinção, o CPRJ não está aberto ao público em geral, e as visitas permitidas são controladas.
Por outro lado, pelo fato de estar localizado em uma estação ecológica, área que mantém características originais da natureza, circulam pelo Centro espécies de animais que podem causar eventuais danos ao homem. Já foi observada a presença de serpentes peçonhentas (jararaca e jararacuçu), aranhas, escorpiões, lacraias, vespas e abelhas, e, embora os casos ocorridos sejam raros, compete-nos alertar a todos para essa possibilidade; uma das finalidades dessa unidade de conservação é justamente manter a fauna local protegida, mesmo aquelas espécies ditas peçonhentas, já que todas têm um papel na complexa rede ecológica da qual fazem parte. Ali, somos nós os invasores.
Clique aqui para ver os trabalhos publicados pelo CPRJ.
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